quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Nº. 1525 - PR: João A. Pestana Teixeira


Eu Sou a Sombra


É um velho!
Diz-me ele com os olhos baços
Porque eu sou o espelho
Dos seus cansaços
Das suas ilusões e desilusões
Ilusões perdidas desilusões  sofridas
Velho? Sim sou velho
Mas cá sigo o meu caminho
E por amor de Deus
Nunca me chamem velhinho
Velho? Sim sou velho
Mas peço a Deus e tenho fé
De terminar como sempre vivi
De pé!

Fui moço aventureiro e folgazão
E muito precoce no amar

Eramos duas crianças
Eu e ela
Que não era feia nem bela
Sim moça alegre e singela
Que era todo o meu querer
Mas por um estranho pudor
Nunca lhe falei de amor.
Mas esse pudor irracional
Pouco tempo durou
Doença súbita e mortal
Para o Céu ma levou
Mas não fiquei no mundo só
Deixou-me a saudade por companheira
Agora que tantos anos lá vão
Uma vida inteira.

E antes que a vida me fuja
Pensei, melhor sonhei
Dar voz à saudade
E fazer um poema para a posteridade
À memória sempre companheira
Daquela moça alegre e singela
Que não era feia nem bela.
Mas o meu estro quase implume
Já pouco pode voar.
Quando forço a mente
Em busca de uma ideia
Muitas surgem num repente
Mas tão modestas e sem alma
Que lembram a minha aldeia.

Sempre gritei hinos à liberdade
Mas agora sou escravo
Das horas de tomar
Cápsulas, comprimidos ou drageias
Todas elas palavras feias
Difíceis de pronunciar.
Mas diz-me o doutor
Que zela pela minha saúde
Que elas têm a virtude
De afastar o mais possível
A maldita que no silêncio das noites
Me sussurra aos ouvidos
Sussurro que me queima e gela
E me soa a vento agreste
Lá vai ela. Lá vai ela
A tua vida a fugir
Parece um apagar de vela
Ou fruto maduro a cair
Lá vai ela... Lá vai ela.


Poema inédito do escritor alentejano João A. Pestana Teixeira, autor d' "O Grito do Gaio"

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