sábado, 8 de setembro de 2012

Nº. 306 - Coisas do Diabo, I


1. Deus e o Diabo são multiformes; porém, este último - produto de uma concepção dualista que ilibou o primeiro de quaisquer responsabilidades na feitura do mal - é sinónimo de livre-arbítrio por depender só da vontade do praticador.

2. Sempre que algo corre mal e não é conveniente (aliás, prudente) apontar o dedo ao responsável por eventuais desaires, logo se remata o episódio com a frase sacramental de serem coisas do Diabo, isto é, atira-se o livre-arbítrio às malvas e elege-se um pecador.

3. Claro que o pecado é uma transgressão ou falta contra quaisquer regras, preceitos ou normas e, sempre que estas são contestadas por um eventual prevaricador, toda a comunidade ergue as mãos aos céus pelo sacrilégio cometido, facto atenuado pela rápida punição do infractor.

4. Em verdade vos digo que, nos dias de hoje, o pecado mais frequente é o venial - não traz grandes trabalhos a quem o pratica - sendo apenas digno de punição temporária visto que a pena capital está fora de questão e a prisão perpétua sai muito dispendiosa.

5. Abro aqui um parêntesis para sublinhar que venial é o adjectivo que atenua o pecado em si como falta ligeira - que não faz perder a graça - sendo, talvez, esta a razão pela qual se torna desculpável aos olhos de muita gente - é de graça.

6. Logo, todo o acto repreensível praticado contra a lei ou contra a moral é sempre atribuido a outrem, sendo mormente autodesculpável quando recai sobre o causador que alega inocência por candura inata, credulidade ou maldade alheia.

7. Todo o mundo foge às responsabilidades e acredita em direitos inalienáveis - o resto, são coisas do Diabo.

Nau

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