quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Nº. 5972 - Prelo Real
Suspensão Coloidal
Penso no ser poeta, e andar disperso
na voz de quem a não tem;
no pouco que há de mim em verso,
no muito que há de tudo e de ninguém.
Anda o cego a tocar La Violotera,
e eu, a vê-lo e a cegar;
e a pobre da mulher esfregando e pondo cera,
e eu a vê-la e a esfregar.
Que riso perto, que aflição distante,
que infíma débil, breve coisa nada,
iça, ao fundo, esta draga carburante
rasga, revolve e asfalta a subterrânea estrada?
Postulados e leis e lemas e teoremas,
tudo o que afirma e fura e diz sim,
teorias, doutrinas e sistemas,
Tudo se escapa ao autor dos meus poemas.
A ele, e a mim.
António Gedeão
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