quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Nº. 5951 - Prelo Real


     Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom, 
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a miséria, 
de perdoar aos nossos amigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir a rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de vidas e de banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes
a voz do locutor 
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre um relógio de pulso antimagnético)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, efuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates, 
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa mecânica,
cintilam, sob intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bençãos e favores.

A Oratória de Bach embrucha a atmosfera do amarento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento 
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta,
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedora,
veio pôr no sapatinho 
do Pedrinho 
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas 
a cairem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá!

Já está!
E fazias erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mãe e o sizudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal.
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal!
Paz na Terra aos homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

                                        António Gedeão
                                    Rómulo Vasco da Gama de Carvalho  





    


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