quinta-feira, 22 de junho de 2017

Nº. 2043 - Prelo Real



          O Tempo Vale Muito Mais do que o Dinheiro


Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.

Não é. O tempo vale muito mais do que dinheiro. Quando morremos acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós. O nosso tempo de vida é a nossa única fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, não conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para trás.

Sobreviveram. Eram objectos . Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele - a régua de arquitecto naval, os relógios - quando ele tinha tempo.

As pessoas dizem "time is money" para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o luxo indispensável de poder perder tempo, a fazer ninharias e a ser-se indolente.

A ideologia dominante de aproveitar o tempo impede-nos de perder esses tempos. Quando penso no meu pai, todas as minhas saudades são de momentos que perdi com ele. Uma noite, numa cabana no Canadá, confessou-me que o único filme de que gostava era "Um Pexe Chamado Wanda". Todos os outros eram uma perda de tempo. Perdemos a noite inteira a falarmos e rirmo-nos disso. Ainda hoje tem graça.

                                          Miguel Esteves Cardoso
                                 in "Jornal Público" - "6 Dezº 2011

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