quinta-feira, 15 de junho de 2017

Nº. 2036 - Prelo Real


                      Poema do futuro

     Conscientemente escrevo e, consciente,
     medito o meu destino.

     No declive do tempo os anos correm
     deslizam como a água, até que um dia
     um possível leitor pega num livro
     e lê,
     lê displicentemente, 
     por mero acaso, sem saber porquê.
     Lê, e sorri.
     Sorri da construção do verso que destoa 
     no seu diferente ouvido; 
     sorri dos termos que o poeta usou
     onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
     e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
     do latejar antigo
     daquele corpo imóvel, exhumado
     da vala do poema.

     Na História Natural dos sentimentos 
     tudo se transformou.
     O amor tem outras falas, 
     a dor outras arestas,
     a esperança outros disfarces,
     a raiva outros esgares.
     Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
     exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
     é tudo quanto fica,
     é tudo quanto resta
     de um ser que entre outros seres 
     Vagueou pela Terra.

                              António Gedeão
                        in  "Poemas Póstomos"

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