quinta-feira, 19 de abril de 2018

Nº. 2344 - Prelo Real



                                   Canção

A pastorinha morreu, todos estão a chorar.

A pastorinha morreu, morreu de seus amores. À beira do rio nasceu uma árvore e os braços da árvore abriram-se em cruz.

As suas mãos compridas já não acenam de além. Morreu a pastorinha e levou as mãos compridas.

Os seus olhos a rirem já não troçam de ninguém. Morreu a pastorinha e os seus olhos a rirem.

Morreu a pastorinha, está sem guia o rebanho. E o rebanho sem guia é o enterro da pastorinha.

Onde estão os seus amores? Há prendas para Lhe dar. Ninguém sabe se é Ele e há prendas para Lhe dar.

Na outra margem do rio deu à praia uma santa que vinha das bandas do mar. Vestida de pastora para não se fazer notar. de dia era uma santa, à noite era o luar.

A pastorinha em vida era uma linda pastorinha; a pastorinha morta é a Senhora dos Milagres.


                                                    Almada Negreiros
                                                                  7/4/93 - 15/6/70

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