Salomé
Como a lua quando nasce
Em tardes de Julho
A sua boca
Pequenina e recortada
Como a flor da romanzeira.
E os seus olhos muito vagos,
Como a verem além-mundo,
Assemelhavam dois vales
Com dois lagos de cristal azul fundo.
Ao longe, num mar de sangue,
Morre o sol.
E uma aragem muito fria
Faz ondular as palmeiras.
Com damasco precioso
Foi coberto o amplo piso
Guarnecido por mosaicos
E vasos d'oiro lavrado.
Fizeram-se juramentos!
E ela, sorrindo, orgulhosa
Ergueu-se quase divina!
Soaram palmas, exclamações e delírio!
- Já ninguém pediu mais vinho!
Baila, baila minha filha!
- Sim; bailarei como nunca!
E o corpete,
Na dança,
Descai-lhe suavemente
Deixando ver os dois seios,
pequeninos, volumosos,
Com dois frutos doirado.
Como tu bailas, amor!
Soltam-se os véus; e em redor
Da sua graça
Da sua carne delgada,
Parecem névoas de seda.
Um grande rubi, soberbo,
Resplandece entre os seus seios
Como se fosse uma estrela!...
Está quase nua!
Mas continua bailando...
No rosto do rei Tetrarca
Há lágrimas e tristeza.
Agora, baila, pizando
Os brocados que envolveram
O seu corpo de Princesa...
Sobre o seu sexo
Brilham duas esmeraldas
De raro fulgor.
E a voz lenta
Da bailadeira franzina,
Soa mais lenta, mais longa,
Mais sensual e mais quente:
"Profeta dos olhos negros,
Hás-de ser meu esta noite
Antes da lua surgir..."
António Botto
in "Canções"
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