segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Nº. 8 - Cidadania

1. O tio de um amigo meu, de visita à Capital, ficou chocado com os atropelos que se verificam na conduta dos peões - e não só.

2. A turba movimenta-se numa aparente azáfama, ora guinando à direita, ora à esquerda, procurando sempre ultrapassar alguém ao balcão dos cafés, às mesas dos restaurantes, à entrada nos transportes públicos.

3. Com a memória selectiva dos idosos, recordava o familiar daquele amigo meu que, no seu tempo, a prioridade no acesso a serviços públicos, tansporte e lugares sentados, etc., era dada a senhoras e crianças, numa atitude paternalista e, sobretudo, de formalismo característico da burguesia.

4. Conta-se que numa certa altura, duas varinas aguentavam-se de pé num transporte público enquanto os cavalheiros cediam os seus lugares a senhoras enchapeladas, dando origem ao mordaz comentário de uma das ditas varins: para nós só a gaita se põe de pé.

5. Retomando o fio à meada, o idoso tio do meu amigo, apanhado num aperto à entrada de um autocarro verberou os oportunistas pela falta de civismo, mera carência de cidadania, porquanto os recem-chegados, atropelavam aqueles que, há muito tempo, aguardavam a sua vez.

6. Um dos vizados, chegando à fala com o protestante de ocasião, afirmava não ser objectivo seu ultrapassar quem quer que fosse, ou disputar qualquer lugar sentado; apenas procurava adquirir o título de transporte, por não ter cartão avençado. Além disso, era professor universitário, consciente das suas obrigações e direitos como qualquer lisboeta.

7. Apaziguados os ânimos, o tio do meu amigo não se coibiu de comentar: a formação académica não é fundamento para uma boa cidadania dado que a instrução é facultada em estabelecimentos próprios; a educação cultiva-se no seio da família; a auto-disciplina para uma saudável cidadania adquire-se nas continuadas boas práticas.

Nau

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