quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Nº. 2127 - Prelo Real


                     O Valioso Tempo dos Maduros 


     Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para diante do que já vivi até agora.
     Tenho mais passado do que futuro.
     Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
     As primeiras ele chupou displicente, mas percebendo que faltavam poucas, rói o caroço.
     Já não tenho tempo  para lidar com mediocridades.
     Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados,
     Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sortes.
     Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
     Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas.
     Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
     As pessoas não debatem conteúdos, apenas rótulos.
     Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa.
     Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços; não se encanta com triunfos; não se considera eleita antes da hora; não foge da sua imortalidade.
     Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
     O essencial faz a vida valer a pena.
     E para mim, basta o essencial!

                                                Mário Pinto de Andrade
                                                ensaísta e político angolano
                                                          1928 - 1900



Nenhum comentário:

Postar um comentário