quinta-feira, 28 de maio de 2020

Nº. 6111 - Prelo Real 28/5/2020


          Poema do futuro

Consciente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase sorri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo móvel, exhumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica, 
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres 
vagueou sobre a Terra.

                             António Gedeão



Nenhum comentário:

Postar um comentário