quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
Nº. 5644 - Prelo Real
Contrariedade
Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar livros mais bizarros;
Incrível! Já fumei três cigarros
Consecutivamente.
Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os àcidos, os gumes
E os ângulos agudos.
Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.
Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica...
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para as sopas...
O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de roupas frias,
Por causa de um jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.
Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.
A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei uma fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.
Com raras excepções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em par calçada abaixo
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.
Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos e artistas,
Independentes! Só por isso os jornalistas
Me legam as colunas.
Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zacone.
Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever prosa.
A adulação repugna os sentimentos feios;
Eu raramente falo aos literatos,
E apuro-me em lançar originais exactos,
Os meus alexandrinos...
E tísica? Fechada, e com ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
No fogo do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!
Mantem-se a chá e pão! Antes entrar na cova
E vai-se; e todavia. à tarde, francamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!
Perfeita-me. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volumes?
Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras.
E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha.
Cesário Verde
1855 - 1886
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