quinta-feira, 30 de novembro de 2023

N. 9991 - Prelo Real 30/11/2023


                    Amor


     A jovem deusa passa

     Com  véus discretos sobre a virgindade;

     Olha e não olha, como a mocidade;

     E um jovem deus pressente aquela graça.


     Depois a vide do desejo enlaça

     Numa só volta a dupla virgindade;

     E os jovens deuses abrem-se à verdade,

     Sedentos de beber na mesma taça.


     É um vinho amargo que lhes cresta a boca;

     Um condão vago que os desperta e toca

     De humana e dolorosa consistência.


     E abraçam-se de novo, já sem asas.

     Homens apenas. Vivos em brasas

     A queimar o que resta da inocência.


                                            Miguel Torga 

     

    

 

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