Missal dum Torturado
Em horas que lá vão, molhei a pena
Na chaga aberta desse corpo amado,
Mas numa chaga a supurar gangrena,
Cheia de pus, de sangue já coalhado!
E depois, com a mão firme e serena,
Compus este Missal dum Torturado:
Talvez choreis, talvez vos faça pena...
Chorai! que imenso tenho eu já chorado.
Abri-o! Orais com devoção sincera!
E, à leitura final duma oração,
Vereis cair no solo uma quimera:
Moços do meu País! vereis então
O que é esta Vida, o que é que vos espera...
Toda uma Sexta-Feira de Paixão!
António Nobre
Coimbra, 1889
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