Nº. 7539 - Prelo Real 26/05/2022
O Cego e a Guitarra
O ruído vário da rua Passa alto por mim que sigo. Vejo: cada coisa é sua. Oiço: cada som é consigo. Sou como a praia a que invade Um mar que torna a descer. Ah! nisto tudo a verdade É sóu eu ter que morrer. Depois de eu cessar, o ruído Não, não ajusto nada Ao meu coneito perdido Como uma flor na estrada. Cheguei à janela Porque ouvi cantar. É um cego e a guitarra Que estão a chorar. Ambos fazem pena. São uma coisa só Que anda pelo mundo A fazer ter dó. Eu também sou cego Cantando na estrada. A estrada é maior E não peço nada.
Fernando Pessoa
Nenhum comentário:
Postar um comentário