quinta-feira, 1 de julho de 2021

Nº. 7510 - Prelo Real 1/o7/2021

                       Feios, porcos e maus


           Compram aos catorze a primeira gravata
         com as cores do partido que melhor o ilude.
         Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
         da jota,  seguem a caravana das bases, aclamam
         ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
         o bailinho das federações de estudantes.
         Sempre voluntariosos, a postos sempre,
         para as tarefas da limpeza após o combate.

         São os chamados anos de formação. Aí aprendem
         a compor o gesto, interpretar humores,
         a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
         das palavras, a escolher o vinho, a espumar 
         de sorriso nos dentes, o sim e o não
         mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
         o carisma de uns, a menos valia
         de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
         de Direito ou de Economia. Começam, depois
         disso a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
         os primeiros cargos, há trabalho sapa pela frente, 
         é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
         Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

         Há que vá pelos municípios, quem prefira
         os organismos públicos - tudo depende do golpe
         de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
         Aos trinta e dois é bem o momento de começar 
         a integrar as listas, de preferência em lugar
         elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

         A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
         director de empresa municipal, coordenador de
         assessor de ministro, ministro ou 
         director executivo, embaixador na Provença,
         presidente da Caixa, da PT, da PQP e mais à frente
         (jubileu e corolário de solvente carreira), 
         o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
         No final, para os mais obstinados, pode haver
         nome de rua (com ou sem estátua) e flores
         de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

                                                    José Miguel Silva
         

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