quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Nº. 10068 - Prelo Real 15/02/2024

         Imersa na pressa cotidiana

  

  Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

  De vos ouvir demasiadamente perto,

  E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um                excesso   

  De expressão de todas as minhas sensações,

  Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!


  Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!

  Ser completo, como uma máquina!

 Poder ir na vida triunfante como um automóvel último   modelo!

 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,

 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me   passento

 A todos os perfumes de óleos e calores e carvões

 Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!


                                                   Álvaro de Campos


                              




    

  

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