quinta-feira, 3 de janeiro de 2019
Nº. 5603 - Prelo Real
Alcool
Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão,
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.
Batem asas d'aureóla aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfume,
Ferem-me os olhos turilhões de gumes,
Desce-me a alma, sagram-me os sentidos.
Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo -
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo para além...
Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate em espuma...
Um disco de ouro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...
Que droga foi a que ma inoculei?
Ópio d'inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?
Nem ópio, nem morfina. O que me ardem,
Foi o alcool mais raro e penetrante:
É só de mim que eu ando delirante -
Manhã tão forte que me anoitecem.
Mário de Sá-Carneiro
19/5/1890 - 26/4/1916
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