quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Nº. 195996 - Prelo Real 19/09/2024


                    Aos Poetas


Somos nós

A humanas cigarras.

Nós,

Desde o tempo de Esopo conhecidos...

Nós,

Preguiçosos insectos perseguidos.


Somos nós os ridículos comparsas

Da fábula burguesa da formiga.

Nós, a tribo faminta de ciganos

Que se abriga 

Ao luar.

Nós, que nunca passamos,

A passar...


Somos nós, e só nós podemos ter

Asas sonoras.

Asas que em certas horas

Palpitam. 

Asas que morrem, mas que ressuscitam 

Da sepultura.

E que da planura

Da secura

Erguem a um campo de maior altura

A mão que só altura semeara.


Por isso a vós, Poetas, eu levanto

A taça fraternal deste meu canto, 

E bebo em vossa honra o doce vinho

Da amizade e da paz.

Vinho que não é meu,

Mas sim do mosto que  a beleza traz.


E vos digo e conjuro que canteis.

Que sejam menestréis

Duma gesta de amor universal.

Duma epopeia que não tenha reis,

Mas homens de tamanho natural.


Homens de toda a terra sem fronteiras.

De todos os feitios e maneiras,

Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.

Crias de Adão e Eva verdadeiras.

Homens da torre de Babel.


Homens do dia-a-dia

Que levantem paredes de ilusão.

Homens de pés no chão,

Que se calcem de sonho e poesia

Pela graça infantil da vossa mão.


                                          Miguel Torga

 

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