Depois Que o Som da Terra
Depois que o som da terra, que é não tê-lo,
Passou, nuvem obscura, sobre o vale
E uma brisa afastando meu cabelo
Me diz que fale, ou me diz que cale,
A nova claridade veio, e o sol
Depois, ele mesmo, e tudo era verdade,
Mas quem me deu sentir e a sua prole!
Quem me vendeu nas hastas da vontade;
Nada. Uma nova oblíquação da luz,
Interregno fictício onde a erva esfria.
E o pensamento inútil se conduz.
Até saber que nada vale ou pesa.
E não sei se isto me ensimesma ou alheia
Nem sei se é alegria ou se é tristeza.
Fernando Pessoa
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