quinta-feira, 16 de maio de 2024

Nº. 10159 - Prelo Real 16/05/2024


         Depois Que o Som da Terra


  Depois que o som da terra, que é não tê-lo,

  Passou, nuvem obscura, sobre o vale

  E uma brisa afastando meu cabelo

  Me diz que fale, ou me diz que cale,


   A nova claridade veio, e o sol

   Depois, ele mesmo, e tudo era verdade,

   Mas quem me deu sentir e a sua prole!

   Quem me vendeu nas hastas da vontade;


   Nada. Uma nova oblíquação da luz,

   Interregno fictício onde a erva esfria.

   E o pensamento inútil se conduz.


   Até saber que nada vale ou pesa.

   E não sei se isto me ensimesma ou alheia 

   Nem sei se é alegria ou se é tristeza.


                              Fernando Pessoa  


  

 




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